segunda-feira, 6 de julho de 2009

Avenida Paralela

soul socrates

A cidade é quente e passageira na Avenida Paralela. Nela as pessoas são objetos, os carros sujeitos. Trocam de lugar quando um corpo está no chão e o capô sujo de sangue. Ao redor uma cortina de outdoors encobre a tragédia dos condomínios fechados. Sem pessoas nas janelas, a cidade não sorri. Não vê as encruzilhadas, os carros pretos e o poder que circunda os urubus. Não vê a carniça, a macumba e os cães que ladram mais não mordem. A cidade é passageira na Avenida Paralela. A vida é efêmera, a paisagem é uma vitrine e as pessoas, as pessoas, as pessoas...morrem e param o trânsito.

Liquefeito

soul sócrates

O casal se enrolou no último Carnaval. Aos pés do poeta deitaram e dormiram. Além de acordarem sem saberem o nome do outro também esqueceram a camisinha. Nada de aids nem sífilis. Uma gravidez indesejada. Ela voltou para São Paulo e dele não se sabe o paradeiro. Nove meses se foram rápido. Ela voltou para Salvador, encontrou o rapaz e entregou a criança. “Não tenho como criá-la”, explicou. Ele retornou para casa e pagou o aluguel adiantado. Comprou um berço e uma passagem para São Paulo. Saiu para o trabalho e deixou o fogão ligado. O gás liquefeito se espalhou pelo apartamento e asfixiou o bebê. “Encomenda para Cecília?”, avisou o carteiro. Abriu a carta e leu a mensagem. “Preferia o aborto”.

Publicado no dia 11 de Novembro de 2008.

Jogo de cachorro grande

soul sócrates

No salão verde, o cerimonial organizava a feijoada do governo. Ao longe, o ministro do estado maior assistia atarantado os socialites beliscarem petiscos exóticos, enquanto aguardava uma ligação auspiciosa. Do outro lado da linha um jornalista ouvia a denúncia e apontava para o editor como quem diz "parem as máquinas, tenho um furo". No gabinete ao lado, o deputado Fulano de Tal acabará de receber um comunicado oficial do congresso nacional, que fechara um acordo para torná-lo o novo ministro do estado maior. O decreto de posse havia sido encaminhado para o diário oficial, que publicou no dia anterior na primeira página a última mudança no escalão de cima do governo. Na sinaleira, o menino do jornal anunciava "Feijoada derrubou o governo: novo ministro tem infecção ministerial no dia da posse. Após almoçar com congressistas, deputado Fulano de Tal é escolhido para assumir o ministério do estado maior, mas, antecessor aciona Polícia Federal e entrega dossiê sobre atividades ilícitas ligadas ao jogo do bicho do sucessor". Segundo a reportagem, o delator teria dito antes de entregar o dossiê: "Se não fico, ele também não".

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dilacerado

soul sócrates

Um gole a mais bastou. A boca do copo ainda estava borrada pelo batom vermelho. Os dois saíram aos beijos. Ela, loura, alta e lânguida. Ele, careca, barbudo, mas esguio. Entraram sôfregos pela porta de trás do táxi. Mãos por de baixo das pernas, vestido para cima. O chofer olhava pelo retrovisor. Sinal vermelho. O chofer não teve tempo de sentir nem o vulto do ônibus atravessar a pista. Desviou em tempo, mas não conteve os lábios carnudos da loura, que tremia ante o dilacerado pênis do amante entre os dentes.

Publicado no dia 3 de dezembro de 2008, no blog www.doispontospontocom.blogspot.com

Debutante

soul sócrates

As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.

Publicado no dia 5 de dezembro de 2008, no blog www.doispontospontocom.blogspot.com